
A ideia de que existe uma postura ideal para proteger a coluna ainda é muito difundida. “Sente direito”, “endireite as costas”, “pare de ficar curvado” são frases repetidas há décadas dentro de casa, no trabalho e até em consultórios. Mas a ciência sobre dor musculoesquelética avançou, e hoje a leitura é mais complexa: postura importa, mas não explica sozinha por que alguém sente dor nas costas ou no pescoço.
Segundo a fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto, o corpo não foi feito para sustentar uma única posição por longos períodos. “Durante muito tempo, associamos dor a desalinhamento. Hoje sabemos que a relação entre postura e dor é muito mais ampla. Não existe uma postura perfeita capaz de impedir todos os desconfortos”, explica.
A Dra Mariana destaca que o problema não está apenas em “sentar torto” ou ficar curvado de olho para o celular. O que pesa mais é o tempo de exposição à mesma posição, a capacidade física de tolerar cargas repetidas e o contexto geral da pessoa, que inclui sono, estresse, condicionamento, histórico de dor e hábitos de movimento.
A postura não conta a história toda
Por muitos anos, a crença predominante foi a de que pequenas alterações no alinhamento corporal levariam, inevitavelmente, à dor. Essa lógica parecia simples: se o corpo estivesse fora do eixo, haveria sobrecarga em determinadas estruturas e os sintomas apareceriam. O problema é que a prática clínica mostrou outra realidade.
Há pessoas com o que se considera uma “boa postura” que sentem dor com frequência. E há pessoas com posturas bastante variadas que não apresentam desconforto algum. Isso não significa que a postura seja irrelevante. Significa que ela é apenas uma parte da equação.
“Não dá para olhar apenas para o jeito como alguém senta ou fica em pé e concluir que essa é a causa da dor. A experiência dolorosa é multifatorial”, afirma a Dra. Milazzotto. Segundo ela, fatores emocionais, comportamentais e físicos interagem o tempo todo e influenciam o modo como o corpo reage.
O celular virou vilão?
O uso do celular é um dos exemplos mais comuns quando se fala em postura. E faz sentido: ficar muito tempo olhando para baixo aumenta a carga mecânica sobre o pescoço. Mas isso, por si só, não explica toda a história.
A especialista lembra que, se a posição da cabeça fosse a causa principal da dor cervical, praticamente todas as pessoas que passam horas no celular teriam sintomas semelhantes. Mas não é isso que acontece. Algumas desenvolvem dor, outras não. Isso mostra que a exposição ao movimento ou à posição precisa ser entendida dentro de um contexto maior.
Em outras palavras, o celular não é o único problema. O que importa é quanto tempo a pessoa permanece na mesma posição, com que frequência isso acontece e qual é a capacidade do corpo de se adaptar àquela demanda.
O corpo precisa variar
Para a Dra. Mariana, talvez a pergunta mais importante não seja qual é a postura correta, mas por quanto tempo a pessoa permanece na mesma postura. O corpo humano foi feito para se mover. Ele tolera melhor a mudança do que a rigidez.
“Fomos projetados para caminhar, virar o tronco, alcançar objetos, sentar, levantar e alternar posições ao longo do dia. Quando isso não acontece, mesmo uma postura considerada correta pode se tornar desconfortável”, diz.
Por isso, a frase “a melhor postura é a próxima postura” ganhou força entre profissionais que estudam dor e função corporal. A ideia não é abandonar o cuidado com a postura, mas tirar dela o peso de solução única.
Mais capacidade, menos rigidez
Um dos conceitos mais atuais nessa discussão é o de adaptabilidade. Em vez de buscar uma posição perfeita, o objetivo passa a ser construir um corpo mais capaz de se ajustar a diferentes demandas. Isso inclui força, mobilidade, resistência e confiança para variar movimentos sem medo.
Segundo a fisioterapeuta, esse é um ponto central na prevenção de desconfortos. “Um corpo forte e que se movimenta com regularidade tende a lidar melhor com as exigências do dia a dia. Não se trata de manter o alinhamento perfeito o tempo todo, mas de desenvolver capacidade para mudar de posição sem sobrecarga excessiva”, afirma.
Na prática, isso significa levantar da cadeira ao longo do expediente, caminhar por alguns minutos, alternar apoio, mudar a posição do tronco e incluir exercícios regulares na rotina. O foco deixa de ser apenas o alinhamento e passa a ser a construção de tolerância corporal.
Dor é mais complexa do que parece
A ciência da dor também mudou muito nas últimas décadas. Hoje se sabe que a dor é uma experiência produzida pelo sistema nervoso a partir de diversas informações, e não apenas de uma estrutura isolada do corpo. Isso ajuda a explicar por que duas pessoas expostas à mesma posição podem reagir de formas tão diferentes.
Sono ruim, estresse elevado, histórico prévio de dor, nível de condicionamento físico, tempo acumulado em determinada posição e até fatores emocionais entram nessa conta. Por isso, reduzir toda dor nas costas, no pescoço ou nos ombros à postura costuma ser uma simplificação excessiva.
“Quando a gente entende a dor como um fenômeno multifatorial, fica mais fácil abandonar a ideia de que existe um único culpado. O corpo responde ao conjunto”, diz a Dra. Mariana.
O que fazer no dia a dia
A mensagem mais atual não é “não se preocupe com postura”, e sim “não fique preso à ideia de postura perfeita”. Segundo a fisioterapeuta, o caminho mais útil está em movimentar-se mais, variar posições e fortalecer o corpo para suportar melhor o cotidiano.
Entre as recomendações práticas, estão:
- fazer pausas durante o trabalho;
- levantar da cadeira regularmente;
- caminhar ao longo do dia;
- evitar longos períodos na mesma posição;
- manter uma rotina de exercícios físicos;
- trabalhar força e mobilidade de forma progressiva.
“Mais do que sentar reto o tempo todo, vale investir em movimento, força e capacidade de adaptação. Um corpo saudável não é o que fica imóvel em uma postura ideal, mas o que consegue transitar entre várias posturas com liberdade”, conclui.
Quando vale investigar
Se a dor nas costas ou no pescoço é frequente, limita movimentos ou piora com o tempo, vale buscar avaliação profissional. Nesses casos, olhar apenas para a postura pode não ser suficiente. O mais importante é entender o que o corpo está tentando comunicar e quais fatores estão mantendo o desconforto.
A postura continua importante, mas a ciência já mostrou que ela não conta a história inteira. O que faz diferença, no fim das contas, é um corpo capaz de se mover, se adaptar e suportar a rotina com menos rigidez e mais confiança.
Com informações: Paulo Novais-Assessoria de Imprensa
Foto: FREEPIK






