Colírios para vista cansada prometem melhorar a visão de perto por até 10 horas, mas não curam a presbiopia

Afastar o celular para ler uma mensagem ou pedir mais luz para enxergar o cardápio: depois dos 40 anos, isso passa a fazer parte da rotina de muita gente. A causa é a presbiopia, a vista cansada. Com a idade, o cristalino, a lente natural do olho, perde a cada vez mais a capacidade para ajustar o foco em objetos próximos.
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Nos últimos anos, o FDA, agência que regula medicamentos nos Estados Unidos, aprovou colírios desenvolvidos especificamente para essa condição. A proposta é diminuir, por algumas horas, a dependência dos óculos de leitura.
“Esses colírios não curam a presbiopia e não revertem o envelhecimento do cristalino. Eles proporcionam uma melhora temporária da visão de perto, que desaparece progressivamente à medida que o efeito do medicamento termina”, afirma Dr. Guilherme C. Rodrigues, médico oftalmologista, especialista em cirurgia de catarata e Executive Advisor, Medical AI & Digital Products, da Afya.
Como os colírios agem
Os medicamentos reduzem o tamanho da pupila, efeito chamado miose. Com a pupila menor, a profundidade de foco aumenta e a visão de perto fica mais nítida. Entre as formulações aprovadas nos Estados Unidos estão medicamentos à base de pilocarpina e aceclidina, além de associações de substâncias como carbacol e brimonidina. Mais recentemente, surgiram também novas abordagens, como a utilização da fentolamina.
Dependendo do colírio, o efeito começa cerca de 30 minutos após a aplicação, e alguns estudos registraram melhora por até 10 horas. Segundo Rodrigues, esse número precisa ser lido com cautela. “Isso não significa que todos os pacientes apresentarão a mesma resposta ou que o efeito permaneça constante durante todo esse período.”
Os óculos não saem de cena
Quem mais pode se beneficiar são pessoas nos estágios iniciais da presbiopia que querem usar o celular, consultar um cardápio ou ler textos curtos sem recorrer aos óculos. Em casos mais avançados, ou quando há outras alterações visuais, o ganho pode ser menor e a correção óptica continua necessária.
“Os colírios devem ser considerados uma alternativa complementar. Em alguns pacientes, eles podem reduzir significativamente a necessidade dos óculos durante determinadas horas do dia, mas muitas pessoas continuarão precisando de correção para leituras prolongadas, letras pequenas ou atividades que exigem maior precisão visual”, explica o especialista.
Efeitos colaterais e quem precisa de mais cuidado
Os efeitos adversos mais relatados incluem vermelhidão e irritação ocular, dor de cabeça, desconforto ao redor dos olhos e alterações temporárias da visão. Como a redução do diâmetro da pupila diminui a entrada de luz no olho, o uso desses medicamentos também pode comprometer a visão em ambientes pouco iluminados, especialmente durante a direção noturna.
Há ainda relatos de complicações mais graves, como roturas e descolamento de retina. Embora sejam eventos pouco frequentes nos relatos disponíveis, sua potencial gravidade exige atenção. Pessoas com miopia elevada, alterações retinianas, histórico de descolamento de retina ou outras doenças oculares precisam de avaliação especialmente cuidadosa antes de iniciar o tratamento. As contraindicações e precauções variam de acordo com a formulação utilizada.
“Nenhum tratamento é completamente isento de riscos. A indicação deve ser sempre individualizada e feita por um oftalmologista, após avaliação da saúde ocular e das necessidades de cada paciente”, afirma Rodrigues.
E no Brasil?
A aprovação do FDA não equivale a uma autorização para venda no Brasil. A pilocarpina, por exemplo, é usada há muitos anos no tratamento do glaucoma, mas isso não quer dizer que as novas versões voltadas para a vista cansada estejam liberadas no país para essa finalidade.
Até o momento, não foi identificada autorização da Anvisa para comercialização dessas novas formulações com indicação específica para o tratamento da presbiopia no Brasil.
O oftalmologista desaconselha comprar esses colírios pela internet, trazer produtos do exterior ou usar versões manipuladas por conta própria. “Todo tratamento deve respeitar as exigências regulatórias brasileiras e ser realizado mediante orientação médica.”
Outras formas de corrigir a vista cansada
Óculos de leitura e lentes progressivas seguem como opções seguras e eficazes. As lentes de contato multifocais permitem melhorar a visão em diferentes distâncias.
Para pacientes selecionados, há cirurgias refrativas a laser com correção personalizada, como o Presbyond, que buscam melhorar a visão de longe e de perto, reduzindo a dependência dos óculos.
Outra possibilidade é a cirurgia de catarata com implante de lentes intraoculares trifocais, que podem proporcionar grande independência visual em pacientes aptos ao uso dessas lentes, após avaliação criteriosa do oftalmologista.
A substituição do cristalino com finalidade principalmente refrativa, mesmo sem catarata significativa, também é uma opção, mas depende de critérios médicos específicos de indicação, incluindo as normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina.
“Não existe um tratamento ideal para todos os pacientes. A escolha depende da idade, da saúde ocular, da rotina, das necessidades visuais e das expectativas individuais”, explica Rodrigues.
Quando procurar o oftalmologista
Precisar afastar o celular ou o livro para ler, ter dificuldade com letras pequenas, pedir mais luz e sentir os olhos cansados em tarefas de perto são os sinais mais comuns da presbiopia e já justificam uma consulta. Nem toda queixa visual, porém, é causada pela presbiopia. Catarata, glaucoma e outras doenças oftalmológicas também podem comprometer a visão, e o exame permite identificá-las precocemente.
Perda súbita da visão, flashes de luz repentinos, aumento rápido de pontos escuros ou a sensação de uma sombra cobrindo parte do campo visual exigem atendimento oftalmológico de urgência.
Para preservar a saúde ocular ao longo do envelhecimento, o especialista recomenda consultas oftalmológicas periódicas, controle de doenças como diabetes e hipertensão, alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e evitar o tabagismo. Manter uma iluminação adequada durante a leitura e fazer pausas no uso prolongado de telas também contribuem para o conforto visual.
Embora essas medidas não impeçam o desenvolvimento da presbiopia, que é um processo natural do envelhecimento, ajudam a promover a saúde dos olhos.
“A melhor opção não é necessariamente a tecnologia mais avançada, mas aquela que oferece o melhor equilíbrio entre segurança, eficácia e qualidade de vida para cada paciente”, conclui o especialista.
Com informações: Ana Oliveira
Foto: Divulgação- Freepik





