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“A faxina que aconteceu no Brasil em 2018 vai chegar em Indaiatuba em 2020”, Tonin fala ao CN

HUGO ANTONELI JUNIOR

Bem-humorado, o ex-prefeito José Carlos Tonin (PSC) recebeu a reportagem em seu escritório no Centro, mas pediu para que esperássemos ele terminar uma partida de baralho online. Depois de ganhar, ele bateu um papo sobre as cartas da política de várias esferas, de Bolsonaro a Gaspar. Falou sobre a Câmara de vereadores, os deputados estaduais, da amizade com adversários políticos e relembrou feitos do governo feita há 40 anos na cidade. Confira abaixo na íntegra a entrevista com o engenheiro e ex-deputado.

Comando Notícia: Qual é a sua opinião sobre o governo Bolsonaro?

José Carlos Tonin: Toda alternância de poder é salutar para a democracia e bom para a governança, seja da Prefeitura, do Estado, do Governo Federal. Eu entendo que a alternância foi interessante. Porque o poder corrompe. Política é assim mesmo, não tem isso de esquerda e direita, vermelho, não muda nada. É claro que o governo Bolsonaro ainda está engatinhando e atrapalhado. O próprio presidente tem dificuldade em conduzir algumas questões, mas acabou de fazer uma reforma interessante, embora sobrou para os mais pobres. Eu me pergunto se eu fosse deputado, se eu votaria. Eu votaria, desde que incluísse certas coisas, por exemplo, ministro do Supremo vai se aposentar pelo INSS? Deputado? Militar? Porque é muito fácil falar. Temos classes que precisam ser tratadas diferentes, bombeiro, polícia, professor, tudo bem. E o meu servente de pedreiro que com 50 anos não tem mais coluna, não tem mais joelho. Esse tem que trabalhar até os 65? É justo isso? Vamos devagar com o andor. Todo mundo puxa brasa para a sua sardinha. Mas aqueles que não tem voz, vão dançar com esta reforma. Mas ainda sobre a alternância, em Indaiatuba também vai ter, a faxina está chegando.

CN: Qual é a sua avaliação do governo Doria?

JCT: O Doria é outro engravatadinho, mas é sabidinho. De bobo ele não tem nada. Ele fez um fortuna em cima de fazer evento. Que empresa ele tem? Quantas pessoas ele emprega? Fez a vida em cima dele. É um cara sabido que virou prefeito, pulou para governador e já quer ser presidente. Eu acho que difícil que ele seja presidente porque ele não conversa com ninguém, só com meia dúzia, não é agregador. Eu acho que ele tem voo curto. No governo ele tem tocado a bola, mas não vejo ele com fôlego para muita coisa não.

CN: O que está achando do governo Gaspar?

JCT: O Gaspar tem tocado a bola. Como Indaiatuba tem uma boa receita pela sua pujança econômica, situação geográfica. Tá fazendo “tic-tic” como estão fazendo há 20 anos. Faz 20 anos que eles estão alisando esse Parque Ecológico. Faz uma ponte aqui. Uma passarelinha ali. É um governo “chocho”, não tem iniciativa. Quais são as grandes iniciativas nos últimos anos da Prefeitura? Nenhuma. Tivemos a iniciativa no passado de criar a Fiec, trazer a Fatec, criar a Guarda Municipal, trazer o Sesi, Senai, empresas como a Toyota. Estão só tocando o barco. De tanto fizer passarela, fizeram até uma a mais em Itaici e vão ter que inventar um rio para colocar em cima. Eu acho as últimas administrações confundem o particular com o privado, eles misturam tudo,c omo se lá fosse mais um negócio do que qualquer coisa. Se você perguntar para o pessoal da Prefeitura sobre os índices econômicos, educacionais, eles tem uma vaga noção. Agora, se você perguntar quantos loteamentos tem, eles sabem o número de lotes. Gostam de loteamento. É com eles mesmos. E os parceiros estão firmes aí. Eles confundem. É o chamado patrimonialismo. Isso tem que acabar. Cada vez que vai mudar o plano diretor para mudar as áreas, eles vão ver a quem pertence. No nosso tempo era diferente. Não queríamos saber quem era.

CN: Qual a pior área para o senhor?

JCT: A pior coisa da Prefeitura é não administrar para todo mundo. É administrar para os parceiros. Esse é o pior de tudo e acaba dando prejuízo. Vou dar um exemplo, quando eu trouxe a Fatec para cá, eu negociei com o governador Fleury, a Fatec era para ser onde é o Pão de Açúcar, o Flávio Tonin chegou a assinar um convênio para que a Fatec fosse ali. Depois venderam e hoje a Fatec fica no fundo do quintal, não se desenvolveu, podia ser muito maior, não tem estacionamento, fica lá mirrada.

CN: Tem algum ponto positivo?

JCT: O ponto positivo do Gaspar é que eles não se metem muito na administração. E administração pública é o seguinte, se você entra e não fizer nada, a máquina da Prefeitura leva. A máquina tem funcionários qualificados. Nos últimos 20 anos o prefeito não se meteu muito na administração. Porque se meter dá burrada. Deixa a máquina tocar, a máquina é boa.

CN: E a Câmara, o senhor acompanha?

JCT: A Câmara eu acompanho por alto, mas é uma carimbadora do que vem do Executivo. Não apura nada. O escândalo do BVA. Perderam R$ 53 milhões em 2011. Se corrigir dá R$ 100 milhões. É um dinheirão. Indaiatuba não tem essa capacidade de investimento com este orçamento, nem perto. A capacidade é R$ 30, R$ 40 milhões por ano. Perderam o investimento de três anos. A Câmara instalou uma CPI não convidaram ninguém, lavou as mãos. Só fica dando de rua. Ninguém sabe que existe a Câmara. Porque são poucos vereadores que são atrelados ao Executivo. Eu sou a favor que se tivesse um pouco mais de vereadores seria melhor, para ficar mais arejada. Não ia gastar muita coisa do que ter esses 12 e a maioria encabrestada pelo Executivo. Podia ser 17. Teve um movimento porque aumentou 50 mil réis para cada um. Tem muita gente em Indaiatuba que sofre do hipermetropia. Enxerga o que está longe e não enxerga o que está perto. Tem um bacaninhas aqui da cidade que sabe tudo o que está acontecendo na Venezuela, em Cuba, na Rússia, em Brasília. E aqui em Indaiatuba ninguém sabe nada. Estão preocupado com as formiga que estão passando lá na Vila Avaí e esquecem dos elefantes passando na praça Prudente de Moraes. Por exemplo, a CPI da saúde. Deixa rolar. Por que não querem? A CPI do BVA que foi o maior escândalo da história de Indaiatuba, a maior perda de dinheiro da história e toda vez que tem eleição vem o jurídico da Prefeitura e fala que em 15 dias o dinheiro vem. Vem, sim. Assim que o sargento Garcia prender o Zorro.

CN: O senhor é a favor da CPI da saúde?

JCT: Sou. Esse povo pobre que depende da saúde pode dizer. A coisa tá feia. Mas não deixam. Se está tão bom, por que não deixam investigar? Deixem investigar. Eu sei que há problemas na saúde. Porque precisa fazer funcionar. A atenção primária, dos postos. E a turma ainda reclama do governo do PT. Essa Upa veio e ajuda muito. A Prefeitura põe a menor parte. Foi uma coisa boa. Por exemplo, o Estado tem o AME, uma espécie de Hospital Dia. O Estado inteiro tem. Cidades muito menores tem. Salto tem. Indaiatuba não tem. O nosso deputado está lá há 20 anos e nada. Não tem porque o nosso deputado fica lá tirando fotografia, aparece a cada quatro anos para fazer campanha, acomodou.

CN: O senhor acha que o Rogério Nogueira pode vir a ser candidato a prefeito?

JCT: Acho que sim. Até porque daqui a pouco está todo deles inelegível e é difícil achar alguém que possa concorrer. Se ele fosse eleito, não acredito que seria um bom prefeito. Pelo que ele toca com 20 anos de parlamentar eu sinto coisas importante. Eu trouxe uma Fatec, o que ele trouxe em 20 anos, além de papinho, fotos. Nada importante.

CN: Incluindo a segurança?

JCT: Aqui em Indaiatuba já teve seis delegados e hoje tem três. É um relaxo. Você vai na delegacia não tem funcionário, não se resolvem os crimes, se não é a prefeitura ceder alguns funcionários não dava. Isso acontece porque não temos representação política. É igual o pedágio…

CN: Dá para mudar esse pedágio?

JCT: Sempre vem esse papinho de mudar, mas aí chega na eleição o povo vota no candidato do partido do pedágio. O Doria teve mais de 60% dos votos aqui. Aí não adianta. Um dia a gente espera que a cobrança seja mais inteligente.

CN: E qual a sua avaliação sobre o Bruno Ganem?

JCT: O Bruno está dando um show. É um menino simples, modesto, mas é preparado. É formado na USP, a melhor do Brasil. Chegou aqui virou suplente de vereador, depois virou vereador mais votado, perdeu a eleição por nada e agora é um deputado de 107 mil votos. Chegou na Assembleia e é  terceiro secretário da casa e está dando um show de administração, de ponderação, de ir atrás do que interessa. Está trabalhando muito bem. Espero que ele venha como prefeito porque é a mudança que precisamos. Ele eu acho que não tem como. A população exige que ele seja candidato. Ele é hoje a nossa alternância. É o nosso Pelé da vida política de Indaiatuba. É a nossa grande esperança de alternância desses governos que vem um atrás do outro. Depois de uma noite escura, a aurora vem chegando. Eles vão perder. Vão espernear, mas vão perder, chega. Já deu o que tinha que dar. Ninguém aguenta mais. Faxina que aconteceu no Brasil vai chegar aqui. Faxina em 2020. A Câmara também. Tem bons vereadores, mas o sentimento da população é dar uma boa renovada.

CN: Se o Ganem fosse eleito, o que ele deveria fazer inicialmente?

JCT: Acho que ele tem que tomar pé da situação e fazer um governo igual para todo mundo. Não só para os compadres. Chega de compadrio tem que acabar. Tem que fazer uma administração que seja do interesse de todo mundo. Ver essa questão da saúde que está capenga. O prefeito costuma falar que a saúde aqui é boa, mas que vem muita gente de fora. Porque aqui é muito bom. E a gente não usa em Campinas? Só que quando o pessoal de Elias Fausto quer comprar um carro, vem aqui. Gera imposto aqui. Mas quando usa hospital aqui todo mundo fala. Todo mundo depende de todo mundo. É uma coisa só.

CN: Gostou mais de ser prefeito ou deputado?

JCT: Eu gostei da minha atividade pública. Achei que foi legal. Achei que prefeito seria mais interessante, porque sou engenheiro. Mas tempo de assembleia trabalhei muito, fui líder de uma bancada de 15 deputados, trabalhei muito na modernização do Estado de São Paulo quando Mario Covas foi governador. Depois fui assessor especial. Trabalhei mais para ganhar nada, mais por amor à camisa. Porque para ganhar os trocos que preciso para sobreviver é o meu diploma de engenheiro da Unicamp.

CN: Voltaria para a política?

JCT: A gente já está na reserva e tem muita gente nova que a população aprova mais do que os políticos antigos. Vamos renovar. Sou a favor da renovação e alternância. Pode ser que a gente participe de alguma coisa. Está de bom tamanho o que a gente fez. Deixa a moçada tocar agora.

CN: O senhor tem conversa com o Gaspar, por exemplo?

JCT: O Gaspar nunca me procurou, ao contrário, eu que o procurei para tratar de um assunto técnico, projetos meus, e ele se negou a me receber. Tenho amizade com a família e tudo mais. Mas ele confunde muito a parte pessoal com a parte pública. Como prefeito não quis me receber. Estive uma vez no gabinete, tentei marcar e não quis me receber. Não deu motivo nenhum. Tanto que eu tenho um projeto lá que está tramitando desde 2012, um conjunto habitacional, e estou no Tribunal de Justiça para que a Prefeitura aprove. Porque não aprovou até agora por questão política.

CN: Com o Reinaldo também?

JCT: Converso com o Reinaldo sem problema. O Henrique Lopes Cruz, que é o tio dele, que ele se inspirou para entrar para a política, foi meu vereador, me ajudou quando eu estava na Prefeitura. Eu respeito a família Nogueira, Lopes Cruz, divergência política não tem problema nenhum. Tomo cerveja com ele, sem problema nenhum. O Gaspar também. Quando vai na reunião da associação dos engenheiros. Quando chega que tem que exercer a função de prefeito ele se apequena. Perseguiçãozinha boba. Ele está achando que é eterno? Daqui a pouco passa. Todos os governantes tem a mania de criticar a mídia, a imprensa. O Bolsonaro critica a Folha e a Globo. O Lula também criticava a Globo. Porque a Globo, o Estadão, a Folha, os meios de comunicação são os termômetros que medem a temperatura da administração. Agora, quando você está com febre, você quebra o termômetro ou tenta resolver e se acertar com medicamento. A mídia é o termômetro.

CN: Qual é a sua opinião sobre os processos que a Prefeitura de Indaiatuba iniciou contra jornalistas?

JCT: Essa atitude é para intimidar, para criar dificuldade para o órgão da imprensa. Porque ele vive com poucos recursos, vive catando milho, na medida em que sofre um processo e tem que arrumar advogado, custo de processo, cria dificuldade para se manter vivo. Com a internet e mídias eletrônicas, todos estão em dificuldade. Se o poder público vier dar em cima é mais dificuldade para que eles sobrevivem. Tem um orçamento interessante. Ficam gastando na rede Globo em Campinas para fazer o quê? Prestigia os órgãos locais. Qual é o interesse de Mombuca saber o que acontece em Indaiatuba? O Saae fazer propaganda e gastar dinheiro para fazer o quê?

CN: Qual projeto o senhor considera o mais marcante do seu governo?

JCT: Para mim, duas coisas. A primeira é a Fiec. Eu criei essa marca, esse nome e o programa de lotes urbanizados. Você fala para as pessoas que não pode invadir. A Prefeitura faz uma “invasão legalizada” e você se vira para construir. Com os irmãos da igreja, com a herança, com ajuda e você é um homem liberto. Quem não paga aluguel está em liberdade. A classe média não aprova muito, não gosta de pobre. Me criticou muito por causa disso. Não me arrependo de ter feito. Sugeri para a equipe do Bolsonaro. Pega 600 mil terrenos para o povo morar. Ele vai assentar filhos e sonhos em uma propriedade que é dele. Mas não vai. Não interessa para os políticos e para a empreiteira. Não tem como ter propina.

CN: Deixe um recado para encerrar.

JCT: Indaiatuba tem essa beleza porque nós fazemos. Todos fazem. Desde o peão do Morada do Sol, Colibris, Sabiás. Esse povo que silencioso faz a nossa grandeza. Vamos fazer com essa grandeza seja compartilhada com todos, vamos acabar com esse compadrio, com essa marmelada, que os privilegiados tem tudo e não quer que os debaixo tenham nada. Fazer com este povo de baixo tenha acesso a um lote de 5×25 e a possibilidade de se assentar ali.