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“Alguém tem que zelar pelos outros”, como é a rotina de quem trabalha no réveillon

HUGO ANTONELI JUNIOR

Faz três anos que o técnico de enfermagem Marcio Pereira Candido, de 35 anos, morador de Sorocaba, não passa o réveillon com a família. Ele trabalha para a empresa São Francisco Resgate, que presta serviços para a AB Colinas na rodovia Santos Dumont (SP-75).

“Nossos familiares nos questionam porque temos que trabalhar nesta data. Dizem que é uma data para estarmos todos juntos, mas nós sempre falamos que para que todos possam comemorar, algumas pessoas tem que zelar pelas outras e cá estamos nós, zelando pelos nossos usuários”, afirma. Depois do Natal de quem não tem Natal, veja este especial.

“Muitos na nossa área trabalham em mais de um local, por isso essas folgas são ainda mais raras. Com certeza passaria a data com a família. Depois de algum tempo no trecho aprendemos o valor verdadeiro da família”, avalia ele, que assume os plantões sempre às 19 horas e que atua no ramo há 12 anos.

Sempre quando o relógio bate em meia noite, Flávio Aparecido da Silva, de 39 anos, faz uma oração. “Agradeço as bençãos e as vitórias e peço um ano novo feliz”, conta. Ele é socorrista na mesma empresa que Marcio e atua na profissão há 10 anos. “Meu último Natal com a família foi há 3 anos e o ano novo há dois. Se não fosse trabalhar, passaria o Natal com a família e o ano novo na igreja. Dos trabalhadores que estão no batente, me sinto honrado, pois o nosso país está enfrentando uma crise, com mais de 14 milhões de desempregados.”

Haoc

A enfermeira Fabíola Helen da Silva, 35 anos, trabalha na área há uma década e atualmente está no Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc). Apesar de neste ano ter as duas datas para ficar em família e com amigos, ela se lembra de quando não podia. “O ano passado passei as datas com familiares. Quando não dava, eles falaram que gostariam que eu estivesse junto a eles, mas entendiam que nessas datas ou qualquer outra data comemorativa estarei trabalhando”, conta.

“Sempre comemoramos na virada, um pouco antes da meia –noite sempre alguém da família se veste de papai noel, faz brincadeiras, distribui presentes para as crianças e após jantamos. Os pacientes são todos gentis, sempre desejando um feliz Natal e feliz ano novo também. Primeiramente fico muito grata em estar trabalhando, desde quando escolhi a enfermagem eu já tinha ideia de que nessas datas poderia estar trabalhando, pra mim é um dia comum de trabalho, como qualquer outro.”

O caso de Eliane Befilli Leitão, de 42 anos, que é técnica de enfermagem é parecido. “Minha rotina é de 12 por 36 (12 horas de trabalho seguidas de 36 horas de folga) e trabalho com isso desde novembro de 2010. Em 2017 trabalhei no Natal e passei o ano novo com a família e amigos. Se não fosse o trabalho passaria com família e amigos. Eles sentem minha falta, porém entendem e respeitam a minha escolha profissional.”

Ela diz que comemora as festas durante o almoço no trabalho. No ambiente de trabalho, ela conta que as reações são boas. “Reagimos com alegria e desejamos sim um Feliz Natal umas para as outras, como todos os dias, com respeito e alegria. Me sinto bem, pois foi a profissão que escolhi, portanto faço com amor. Meu desejo é que todos possam entrar no Ano Novo com amor, alegria e esperança no coração, sem qualquer sentimento negativo.”

Recepção e limpeza

Na linha de frente do hospital durante o período da noite e da madrugada, Aparecida Marques Pezotti, de 49 anos, conta que em uma das datas sempre consegue ficar com as pessoas que quer. “No hospital são quatro anos no mesmo horário (das 18h às 6h), mas na recepção estou há um ano. Se eu não fosse trabalhar, aproveitaria à noite com os meus familiares. Meus familiares programam as comemorações de acordo com as minhas folgas
para que eu possa participar.”

O local de trabalho também é o de comemoração. “Me sinto bem por ter um trabalho e trabalho como se fosse um dia qualquer. Quando fui admitida estava ciente dos meu horários e compromisso. Na folga seguinte, primeiramente descanso e depois aproveito o dia com o meu filho e meu neto. O meu único desejo é de paz, um mundo melhor pra todos.”

Já para Magali Silva, de 41 anos, que trabalha como auxiliar de serviços de higiene hospitalar, o momento é de alegria. “Eu me sinto mais necessária e importante para o que faço. Porque mesmo quando o momento é de festa, há pessoas que precisam do meu serviço”, diz.

Apesar de alguns amigos e familiares criticarem o horário de trabalho, ela não liga. “São 10 anos nesta escala. A maioria entende e já se adaptou a isso. Já trabalhei na virada e tirando o momento que desejamos felicitações aos colegas, tudo corre normalmente”, afirma. E completa. “Peço para que Deus me dê saúde, força, disposição e tudo o mais virá conforme o meu merecimento.”

fotos: divulgação/AB Colinas