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Crítica: “It – Capítulo 2” vai além do terror

MARCOS KIMURA*

A aguardada sequência de “It – A Coisa” chega aos cinemas esta semana com o subtítulo “Capítulo 2” e reforçado pela inclusão no elenco de estrelas como James McAvoy (“Fragmentado”) e Jessica Chastain (“A Hora mais Escura”). A continuação também ficou mais longa, talvez para justificar as 1.200 páginas do romance que deu origem aos dois filmes.

Alguns críticos acharam longo demais, mas eu achei adequado ao que ele se propõe. E o diretor argentino Andy Muschietti propõe muito além do terror convencional. Portanto, quem vai esperando apenas sustos, mortes e correria, pode achar as quase três horas de projeção puxadas. Mas se você for com a cabeça aberta para uma jornada sobre traumas e descobertas da infância e suas consequências para o adulto que nos tornamos, aí o filme vale a pena.

O que se segue é por sua conta e risco, porque lá vem spoilers.

Após o prólogo que parece apenas politicamente correto (mas que terá importância para ir fundo no trauma de um dos personagens), “It – Capítulo 2” começa apresentando no que as crianças do Clube dos Otários (loosers, no original) se transformaram. O líder do grupo, Bill (James McAvoy, meio no piloto automático), tornou-se escritor e roteirista, casado com uma atriz, que tem um problema recorrente de não conseguir concluir bem seus romances.

Richie (Bill Hader, do seriado “Barry”, o melhor do elenco) virou comediante; o hipocondríaco Eddie (James Ransone, do seriado “Bosch”) trabalha como consultor de riscos e o gordinho Ben virou o galã Jay Ryan (do seriado “A Bela e a Fera”, com Kristin “Lana Lang” Kreuk), um bem-sucedido homem de negócios.

O destino do garoto judeu Stan (Andy Bean, do seriado já cancelado do “Monstro do Pântano”) acaba se entrelaçando com o da ruiva Bev (Jessica Chastain), casada com um marido abusivo, que reproduz sua relação com o pai (Freud para iniciantes, mas vá lá). Confira a programação de horários.

O único que ficou em Derry e que acaba convocando os demais quando confirma a volta de Pennywise (Bill Skargard, menos interessante que no primeiro filme) é Mike (Isaiah Mustafá, de “Caçadores de Sombras”). É o único que se lembra com detalhes de tudo o que aconteceu 27 anos atrás, incluindo a amizade entre eles, e é quem tem um plano para acabar de vez com a ameaça.

Se a partir daí, o filme foca mais na busca dos personagens pela infância esquecida, tem o aval do próprio Stephen King, que não apenas acompanhou o desenvolvimento do projeto como ainda faz uma participação à lá Stan Lee. A resolução dos conflitos pessoais e da relação entre os protagonistas passa a ser foco da narrativa. Quase todo o resto – explicação do porque eles tem que ir em busca do passado e não simplesmente sair correndo da cidade, ou a origem de Pennywise – é uma justificativa para manter todos unidos.

Cada confronto com o respectivo passado é praticamente uma sessão de anamnese. A melhor, em termos de susto, é a da Bev com a velha sinistra. Fãs de terror devem ter ficado decepcionados com Pennywise transformado numa versão ainda mais psicanalítica de Freddy Kruegger, mas fica claro que, ao abrir a narrativa para outros gêneros, os Muschietti (Andy, o diretor, e a irmã Barbara, produtora, juntos desde “Mama”) não querem ser prisioneiros do gênero. Confira a programação de horários.

Aproveitaram o orçamento maior tanto para trabalhar com estrelas tarimbadas como para incluir cenas grandiosas, de superprodução (por enquanto, devem fazer o futuro filme do “Flash”). Dentro do que se propuseram, não acho que a metragem seja excessiva, mas você tem que comprar a ideia.

*Marcos Kimura é jornalista, curador do Cineclube Indaiatuba (SP) e escreve sobre cinema às quartas.

foto: reprodução/divulgação