Curativo líquido licenciado da Unicamp pode acelerar a cicatrização de feridas em até 50% – Comando Notícia
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Curativo líquido licenciado da Unicamp pode acelerar a cicatrização de feridas em até 50%

Spray curativo unicamp

O uso de curativos tradicionais no tratamento de feridas pode causar desconforto aos pacientes e dificuldades que atrasam a recuperação. O banho e a substituição dos curativos costumam incomodar ou até arrancar o tecido novo em formação, por exemplo. Outra desvantagem é a limitação dos movimentos, pois os curativos geram atrito nos ferimentos localizados em áreas de articulação, como no cotovelo.

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 A fim de melhorar a qualidade de vida de pacientes em tratamento de feridas, pesquisadores da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram uma tecnologia biocompatível, segura e que não polui o meio ambiente. Na prática, trata-se de um curativo líquido aplicável diretamente na região lesionada. A tecnologia cria uma película protetora transparente sobre o ferimento em até 45 segundos, dispensando o uso de gaze, esparadrapo ou outros elementos sobre a ferida e acelerando a cicatrização natural do machucado. O tempo de recuperação do paciente pode diminuir em até 50%, segundo os pesquisadores.
 

A pesquisa foi coordenada pelo professor Rubens Maciel Filho, com a participação dos pesquisadores André Luiz Jardini Munhoz, Ana Flávia Pattaro Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon. O curativo foi licenciado exclusivamente para a Dermbio Biotech, empresa spin-off acadêmica da Unicamp, que tem a participação dos próprios inventores, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento comercial da tecnologia. A empresa já havia licenciado uma outra tecnologia da Unicamp para produção de polímeros a partir do ácido lático. O licenciamento das tecnologias foi conduzido com o suporte estratégico da Agência de Inovação Inova Unicamp.
 

A Dermbio Biotech é uma empresa-filha da Unicamp, por ter sido fundada por um docente, dois pesquisadores e uma egressa da Universidade, e também é considerada uma spin-off acadêmica por ter sido criada a partir do resultado de uma pesquisa produzida na Unicamp, tendo sido premiada no Prêmio Inventores Unicamp, edição 2024.
 

Limitações dos tratamentos tradicionais de feridas
 

Os métodos convencionais de proteção e de cobertura de ferimentos (gazes, ataduras, fitas adesivas e outros) podem causar desconforto ao paciente durante a substituição ou remoção do curativo que frequentemente arranca o tecido novo em formação, atrasando a cura. O banho pode ser mais um obstáculo que posterga a recuperação, com esfregação acidental e aumento da umidade na área machucada. Outro problema é o risco de infecções, uma vez que a manipulação de instrumentos não estéreis e a retenção de umidade favorecem a proliferação de bactérias no local ferido.
 

Para Maciel Filho, o diferencial do curativo líquido está na eliminação completa do contato físico com a região afetada.
 

“O ferimento afeta a qualidade de vida e a pessoa sacrifica muitas atividades que precisam ser realizadas no dia a dia. O grande atrativo e a grande vantagem da tecnologia em que a Dermbio se baseou é se propor a desenvolver um novo método de cobertura da ferida sem haver nenhum toque nela, sem você estar colocando uma gaze ou atadura. Estamos formando um filme inteligente no sentido de que ele interage muito bem com a pele e cria uma condição de barreira contra agentes externos que causam infecção, servindo como substrato para acelerar a cicatrização da ferida”, aprofunda o professor e pesquisador.
 

A tecnologia desenvolvida na FEQ Unicamp utiliza um polímero reconhecido por sua excelência em biocompatibilidade com o corpo humano. No entanto, segundo o coordenador da pesquisa, um desafio histórico enfrentado por cientistas e pelas indústrias estava no processamento e na solubilização desse material. Os métodos populares exigiam o uso de solventes tóxicos para transformar o polímero em líquido, o que inviabilizava a aplicação sobre a pele humana, afirma o inventor.

A invenção superou essa barreira ao formular um sistema exclusivo de solventes de origem renovável, ambientalmente sustentável e totalmente atóxicos para o ser humano. Ao ser aplicada sobre a ferida, a estrutura líquida seca em até 45 segundos e atua como uma estrutura 3D servindo como suporte para que as células se regenerem, explica Maciel Filho. Durante o processo, o organismo metaboliza naturalmente o polímero, o que torna desnecessária a remoção manual do curativo, ou seja, o organismo absorve o curativo ao mesmo tempo que cicatriza o ferimento.
 

“O que existe hoje na pesquisa acadêmica e em empresas internacionais é o uso de solventes tóxicos. A nossa inovação e o nosso grande diferencial em escala mundial foi encontrar um sistema de solventes que solubiliza o polímero sem ser tóxico para o ser humano, permitindo a aplicação direta sobre a pele lesada. Então você não tem que cortar ou ajustar o tamanho dessa membrana: ela vai se adaptar conforme a necessidade de cada paciente”, comenta a doutora em Engenharia Química pela Unicamp, Ana Flávia Pattaro, sobre a ausência de toxicidade ser a chave para tornar a aplicação viável.
 

Formas de aplicação do curativo líquido e praticidade em áreas de articulação
 

As duas formas de aplicação do curativo líquido foram planejadas para atender a diferentes cenários médicos. O eletrofiador portátil é a primeira opção, sendo um equipamento compacto desenvolvido pela própria Dermbio Biotech, ideal para uso em hospitais e consultórios médicos. O eletrofiador lança nanofibras que formam uma película de alta aderência capaz de acelerar a regeneração celular. Já a segunda forma de aplicação é por meio de um spray aerossol. É um formato mais prático e acessível para o tratamento de lesões superficiais em casa.
 

Outra característica positiva da invenção apontada por Pattaro é a sua eficácia no tratamento de ferimentos em regiões de dobras e articulações, como cotovelos e joelhos. A tecnologia é capaz de preservar a mobilidade do paciente sem que o curativo descole ou se rompa. Além disso, a película formada é impermeável à água externa, então, o paciente pode tomar banho sem se preocupar em cobrir a região, e é transparente, permitindo o acompanhamento da cicatrização do machucado sem precisar retirar a proteção.
 

“O fato de não precisar cortar e não precisar trocar também traz uma potencial diminuição na contaminação cruzada. Porque se você tem uma manta ou gaze e pega uma tesoura que não está esterilizada para cortar, você corre o risco de levar contaminação de uma região para outra. E o fato de você não precisar trocar e de esse material ser absorvido pelo corpo faz com que você também não gere resíduos biológicos”, completa a doutora em Engenharia Química pela Unicamp, Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon.
 

Expansão para a saúde animal e viabilidade industrial
 

Os pesquisadores da FEQ Unicamp também identificaram o potencial de uso da tecnologia no tratamento de ferimentos em animais, visto que os métodos tradicionais costumam falhar porque eles arrancam as ataduras ou lambem as feridas. O novo curativo líquido, portanto, pode resolver esse problema com sua forte aderência à pele e resistência à água. A forma de aplicação em animais é a mesma planejada para seres humanos.
 

“A tecnologia é totalmente escalável. Nós já realizamos com sucesso os testes de escalonamento do processo saindo da bancada do laboratório. Desenvolvemos equipamentos e processos próprios que não exigem altos investimentos, o que nos garante alta capacidade produtiva, agilidade e custo competitivo no mercado.”, resume Rubens Filho.
 

O desenvolvimento da tecnologia contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Paralelamente, todo o suporte estratégico para o licenciamento exclusivo foi fornecido pela Inova Unicamp.
 

Presente, futuro e versatilidade
 

A tecnologia já passou por ensaios pré-clínicos in vivo, realizados em colaboração com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ). Nesses estudos, o curativo demonstrou a capacidade de reduzir o tempo de cicatrização em torno de 50% quando comparado aos curativos tradicionais, relata Pattaro.
 

Atualmente, a Dermbio Biotech concentra esforços no avanço das etapas regulatórias exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e na estruturação comercial, para que o curativo possa ser disponibilizado no mercado.

O futuro da tecnologia vai além do uso em ferimentos. O grupo de pesquisadores revelou que a invenção também pode ser usada na formulação de dermocosméticos para antienvelhecimento, no recobrimento de implantes e próteses e como um dispositivo para a liberação controlada de antibióticos e anti-inflamatórios.

Prêmio Inventores 2026
 

Em sua 19ª edição, o Prêmio Inventores da Unicamp, organizado pela Inova Unicamp, reconhece e valoriza os inventores que se destacaram na transferência de tecnologias da Universidade e na criação de empresas spin-offs acadêmicas.

Inventores premiados
 

Rubens Maciel Filho, André Luiz Jardini Munhoz, Ana Flávia Pattaro e Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon foram premiados na categoria Propriedade Intelectual Licenciada em 2026.

Confira a lista completa dos premiados no site do Prêmio Inventores da Unicamp.

Programação de homenagens

Em comemoração ao Prêmio Inventores 2026, a Inova Unicamp organizou uma série de homenagens. Entre elas, estão reportagens destacando casos premiados deste ano, disponíveis para leitura nos sites da Inova Unicamp e do Prêmio Inventores.

O Prêmio Inventores 2026 tem o apoio institucional do Lumina, o Fundo Patrimonial da Unicamp, e o patrocínio de ClarkeModet e FM2S.

Com informações: Inova-Unicamp