‘Dia Nacional de Combate ao Fumo’: a geração que ignora o sofrimento de viver sem ar

Agosto, 2025 – A cada dois fumantes no mundo, um será vítima fatal do ato. Dado preocupante para os profissionais de saúde, sem dúvida, mas muito alarmante também para o business da indústria do tabaco, que identificou alto risco de redução de mercado pela perda de clientes de longa data.
A solução, então, foi investir na iniciação de novos adeptos ao cigarro, porém com uma nova roupagem: de produtos com uma estética ultrapassada e combatidos extensamente ao longo dos anos, para produtos que aliam charme e sabor à falsa promessa de saúde. Unindo os efeitos viciantes da nicotina à revolução tecnológica do Vale do Silício, foi lançada uma nova geração de Dispositivos Eletrônicos de Fumar (DEF), conhecida no Brasil por vape, pod ou pen drive.
Esses dispositivos conquistaram adolescentes e jovens, que passaram a consumir um novo sal de nicotina, ainda mais viciante e prejudicial à saúde, em versões high-tech e com a promessa enganosa de não trazer os mesmos efeitos deletérios do cigarro tradicional, eliminando a já conhecida fumaça preta. Essa nova moda pegou e rapidamente se espalhou entre a juventude, que teve contato com os DEFs desde cedo.
No Brasil, a ANVISA proíbe o comércio do artigo, mas pesquisas apontam, ainda assim, que 20% dos jovens entre 18 e 24 anos são consumidores. Oriundos de contrabando e, portanto, sem fiscalização, é impossível estabelecer a concentração de nicotina na maioria dos dispositivos, e não há informações confiáveis acerca do conteúdo destes aparelhos. Em análises recentes, foram encontradas outras substâncias além da nicotina, como canabidiol (mesma substância da maconha) ou impurezas tóxicas ao ser humano.
A verdade sobre o vape é que, apesar da fumaça branca, sua composição é altamente prejudicial aos pulmões. A base da solução nebulizada é o propilenoglicol que, ao ser aquecido por uma bateria, converte-se em aldeídos como benzeno e em metais pesados, substâncias cancerígenas e capazes de causar sérios danos pulmonares. O usuário se torna rapidamente dependente, já que o consumo é fácil, discreto, sem resíduo (como a bituca) e sem odores desagradáveis; o usuário pode fazer uso imediato quando sente desejo, ou seja, quando surgem sinais de abstinência, tornando seu organismo cada vez mais intolerante a permanecer sem a nicotina.
E cabe esclarecer que tanto os DEFs quanto o cigarro comum são fonte de nicotina que, ao contrário do que geralmente se pensa, é uma substância estimulante. Essa informação pode ser decisiva para um fumante refletir sobre sua forma de consumo. A nicotina não tem poder de baixar o ritmo do corpo, mas o que ela faz é gerar uma sensação de bem-estar intenso e rápido por liberar grandes quantidades de dopamina ao chegar ao cérebro, semelhante a comer chocolate ou experimentar atividade sexual. Assim, sua atividade será de inibir o sono, aumentar o foco, aumentar a frequência cardíaca, aumentar a pressão arterial e acelerar o pensamento.
Mas, então, por que tantos fumantes afirmam que o hábito vem da ansiedade? Porque a abstinência desencadeada pela falta de nicotina gera sensações semelhantes à de uma crise de ansiedade, como sudorese nas mãos, inquietude, dor de cabeça, irritação, agitação, insônia, mau humor. Consumindo a nicotina, esses sintomas são controlados, dando a falsa percepção de que o cigarro combateu a ansiedade, quando, na verdade, resolveu a crise de abstinência devido a dependência instalada.
A nova geração de fumantes, seja de cigarros comuns ou de DEFs, ignora o alto risco de desenvolver doenças pulmonares agudas graves ou crônicas progressivas. O Brasil conseguiu reduzir drasticamente a prevalência do tabagismo com a proibição de propagandas e a restrição do uso de cigarros em ambientes fechados. Nas últimas décadas, essas medidas mantiveram a taxa de fumantes em torno de 10% da população. Porém, apesar do uso ilegal, muitos adolescentes têm consumido DEFs, o que torna difícil obter dados suficientes sobre a prevalência de uso atual. Sem dúvida está claro que o consumo destes dispositivos é crescente e as complicações de saúde por seu uso já se fazem presentes, tal como pneumonias, tromboses, exacerbações de doenças crônicas, além da alta dependência que é muito difícil de tratar devido consumo elevado e imensurável de nicotina.
O desafio segue em disseminarmos a informação de que o vape faz mal, tanto ou mais que o cigarro comum. É fundamental mostrarmos à nova geração que não vale a pena o risco de consumir produtos ilegais e não confiáveis como opção mais saudável ou até por uma moda entre os amigos. Ainda alerto os pais para a possibilidade de que suas crianças possam ter contato com DEFs em suas escolas ou condomínios, e que mudanças de comportamento podem estar relacionadas ao consumo de substâncias inaladas.
Aos que fumam cigarros comuns ou eletrônicos, convido-os a visitarem seus médicos para uma avaliação pulmonar adequada a fim de identificar precocemente lesões pulmonares, disfunções respiratórias e considerar tratar sua dependência. Cuide de sua respiração e devolva a tranquilidade e a leveza aos seus dias.
Com informações: Aline Regina Telles de Almeida
Foto: Divulgação-PIXABAY