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“Maioria dos evangélicos desconhece”, teólogo de Indaiatuba fala dos 500 anos da Reforma

HUGO ANTONELI JUNIOR

INDAIATUBA – Quando o monge católico Martinho Lutero pregou as 95 teses na igreja de Wittenberg, na Alemanha, talvez não imaginaria que meio milênio depois as pessoas ainda falariam deste fato. A verdade é que a data, conhecida pelo estopim da Reforma Protestante, completa 500 anos nesta semana. Foi exatamente em um 31 de outubro que o cristianismo mudou de rumos, se dividiu e influenciou na construção do ocidente.

O professor de teologia pelo IFC – Escola de Ministérios de Indaiatuba, João Marcos do Santos, formado pela própria escola e pela Eetad – curso das Assembleia de Deus, conversou com o Comando Notícia sobre os desdobramentos que a Reforma trouxe para a humanidade e também para o Brasil. “A maioria dos evangélicos, infelizmente, não conhece a data”, analisa.

Segundo ele, não há dimensão de como seria um mundo sem a Reforma. “Os Estados Unidos foram fundamentados em valores cristãos. Hoje se perderam, mas tem um fundamento totalmente diferente do Brasil, por exemplo”, diz. A igreja evangélica brasileira precisa mais do que uma “nova reforma”, mas de um recomeço. “Acho que precisamos de um novo modelo”, opina.

Comando Notícia – É possível imaginar um mundo sem a Reforma Protestante?

João Marcos dos Santos – Acho que não. Acredito que se não tivesse acontecido a Reforma, como sociedade, todos estaríamos muito mais longes de Deus. A Bíblia não seria mais um instrumento disponível para todos, embora ainda haja lugares em que isso [proibição da Bíblia] ainda aconteça. No ocidente, especificamente, não teríamos a palavra de Deus. Pensando na época que vivemos, seria um caos. É mais ou menos como aconteceu no estado do Espírito Santo no início do ano, quando os policiais entraram em greve por um mês. Virou um caos, acho que o homem perderia a sua conduta. Na Bíblia, em Romanos capítulo oito, versículo 14, diz que todos os que são guiados pelo espírito de Deus são filhos dEle. A ideia do Lutero não era fundar uma nova crença, mas, sim, reformar a doutrina da Igreja Católica – que havia se perdido, mas eles não aceitaram. Não daria para viver em um mundo sem a Reforma.

 

CN – Quais foram as intervenções dos protestantes na história da humanidade?

JMS – Foi uma grande intervenção. É só olhar para a Alemanha. Antes de 1517, quando as teses foram afixadas, o país era cheio de grupos e línguas diferentes. Hoje, mudou. Com a Reforma, foi escrita a primeira Bíblia em alemão e o país se unificou em torno disso. A própria Europa tem uma característica e outra depois. Muitos países mudaram radicalmente a sua cultura, conhecimento, intelecto de família a partir disto. Os próprios Estados Unidos – que foram fundados e povoados por cristãos que sofriam com perseguições na Inglaterra. Nasceu ali uma nação fundamentada na palavra de Deus. Hoje eles se perderam, mas há um fundamento. O Brasil foi apenas para a extração de recursos naturais. Nos Estados Unidos, os ingleses enxergavam uma nova esperança, isso é fundamental. Se você olha em filmes mais antigos norte-americanos, quando um personagem vai fazer algo errado, você ouvia alguém dizer que ia contar para o reverendo, de tanto respeito que esta figura tinha por lá. Isso não aconteceu no Brasil porque os católicos formaram uma sociedade com muita religiosidade. Por isso, um navio que chegou em Recife [Pernambuco] com reformadores foi queimado por jesuítas.

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Lutero fixou 95 teses contra a Igreja Católica e acabou por fundar uma outra igreja, mesmo sem querer

CN – A igreja evangélica brasileira precisa de uma “nova reforma”?

JMS – Acredito que sim. É bom olharmos para a história e percebermos que o Lutero não queria começar uma nova religião, mas isso aconteceu porque a Igreja Católica não aceitou as teses e nem que elas entrassem em prática. No Brasil, não conseguiríamos reformar os evangélicos a partir do que está acontecendo. Na Bíblia, em Romanos capítulo 11, verso cinco, diz que ainda hoje permanecem os remanescentes segundo a graça. A solução seria começar um novo modelo, baseados apenas na palavra. Os grandes ministérios televisivos se perderam na simplicidade. O apóstolo Paulo, na primeira carta à igreja de Coríntios, capítulo 15, diz que temia que, assim como a serpente enganou Eva no Gênesis, que eles fossem enganados e se perdessem da simplicidade. O evangelho no Brasil está deformado em relação aos que chegaram ao país há uns cem anos, como os fundadores da Assembleia de Deus, O Brasil para Cristo e Quadrangular, avivados pelo acontecido na rua Azusa [acontecimento com grande repercussão e impacto nos evangélicos norte-americanos]. Hoje precisamos de grandes líderes no Brasil que queiram andar na palavra. Precisamos voltar ao princípio, como era, se não, ficaremos piores do que o catolicismo fez ao País. Em alguns casos, já somos.

Avivamento da rua Azusa marcou o cristianismo protestante nos Estados Unidos, em 1905

CN – Por que muitos evangélicos brasileiros não fazem referência à Reforma?

JMS – É muito simples. É porque estamos vivendo um momento de desinformação. Infelizmente temos membros na maioria das igrejas que não leem a Bíblia e muitos menos livros de história. Conhecer a Reforma não é lendo a Bíblia, é através de livros seculares, bons livros, mas a igreja evangélica brasileira tem se perdido, deixou de ler e não se fala de história. Quando dou aula de história da igreja, ouço que a matéria é chata. O nível de conhecimento dos evangélicos é assim. Muitas igrejas tiraram as escolas bíblicas para coloca uma escola da visão da denominação. Por isso, muitos evangélicos desconhecem a data Eu costumo ouvir muitas rádios evangélicas e nenhuma falou do dia 31 e raramente alguém toca no assunto. Esperamos que o povo acorde, conheça, mas tem que haver um interesse pessoal.

CN – A Reforma terá mais 500 anos?

JMS – Não podemos prever o futuro, até porque na Bíblia fala que Deus é onisciente [sabe de tudo], onipotente [tem todo o poder] e onipresente [está em todos os lugares], mas pela forma com que o mundo está, pelo que a Bíblia revela, pelo que está acontecendo na Europa e no Oriente Médio, a volta de Jesus está muito próxima. 500 anos é muito tempo. Acredito que não vai acontecer. Talvez daqui a 500 anos, quem esteja falando deste assunto seja quem esteja vivo no milênio [período apocalíptico previsto no livro bíblico de Apocalipse]. Não acredito que vejamos isso [outros 500 anos de Reforma], é uma data muito importante e que tem que ser comemorada.

Reforma Protestante

Em 31 de outubro de 1517, as 95 teses divulgadas pelo clérigo e teólogo Martinho Lutero se converteram no texto fundacional da Reforma Protestante, marcando sua ruptura com o catolicismo. Com isso, ficaram conhecidas as cinco “solas”, Sola Fide [somente a fé], Sola Gratia [somente a graça], Soli Deo Gloria [somente a Deus glória], Sola Scriptura [somente as escrituras] e Solus Christus [somente Cristo] como bases da fé protestante.

Em 2016, o Papa Francisco participou, em Lund, na Suécia, do lançamento das celebrações do 500º aniversário da Reforma, ao lado de protestantes, em gesto impensável há algum tempo.

Foto: divulgação