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Órgãos mais doados em Indaiatuba são rim e fígado, diz Haoc

HUGO ANTONELI JUNIOR

A morte do apresentador Gugu Liberato, de 60 anos, trouxe um tema importante para as discussões nos últimos dias, a doação de órgãos. O brasileiro manifestou para a família o desejo de ter todos os órgãos doados. Estima-se que cerca de 50 pessoas foram beneficiadas com este ato do apresentador. O Comando Notícia resolveu, então, falar com o Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc) para ter dados sobre as captações realizadas na cidade.

No Brasil ainda não há técnicas para captação de tantos órgãos, mas as doações são uma realidade, conforme explica o doutor Alexandro Andreolli, médico intensivista e coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) do hospital. “No Haoc os órgãos mais habitualmente captados são rim e fígado. Mas, no sistema de transplante brasileiro, outro tipo de transplante muito comum também é o de córnea.”

“Só é possível a doação em casos de morte encefálica, quando os órgãos continuam funcionando artificialmente através das máquinas e drogas circulatórias, porém o cérebro para de funcionar, e é diagnosticada a morte encefálica. Só nesses casos de morte é possível a doação”, lembra. Mas pessoas vivas também podem doar.

“Alguns casos como rins. A pessoa tem dois rins e pode doar um rim para um familiar próximo que precise. Outro caso bem importante de doador vivo é de medula óssea. Qualquer pessoa pode ir a um banco de medula óssea e fornecer para ficar para transplante. Outra forma de doação de órgãos e tecidos é a doação de sangue, que também é uma forma de tecido, embora seja um tecido líquido”, diz.

A doação em vida de sangue e medula óssea é feita nos hemocentros ou centros de transplante de medula óssea, respectivamente. A exceção ocorre para pessoas com doenças infecto-contagiosas ou tumorais, que não podem doar órgãos ou tecidos.

Como doar órgãos?

“Não há nenhum papel que precise ser assinado, nem registrar em cartório. A pessoa deve transmitir o desejo para seus familiares, pois são esses familiares, que no caso de morte encefálica, terão que assinar os papéis para doação. Então, não há nada que a pessoa possa fazer em vida, a não ser comunicar seus familiares de seu desejo, e esperar que esse desejo seja cumprido pela família quando em caso de morte encefálica”, afirma o especialista.

Mas e doações do corpo para pesquisa? Já aconteceu na cidade? Segundo ele, não. “Nunca tivemos um caso assim no Haoc. O que às vezes acontece é em situações onde a causa da morte é duvidosa e o corpo é encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para tentar chegar a um diagnóstico de qual foi a causa da morte. Isso algumas vezes é feito, mas não é por pesquisa ou ciência, é simplesmente para tentar chegar a um diagnóstico.”

Distância entre o sistema brasileiro e o norte-americano

“É basicamente uma diferença estrutural”, analisa o médico. “Os EUA é um país mais populoso, com mais hospitais de ponta, então eles fazem todo tipo de transplantes possíveis. No Brasil, a gente tem comumente a captação e transplante de rim, fígado e córnea. São poucos os centros que fazem transplante de pulmão e coração, por exemplo. Essa é uma diferença para os EUA. Aqui também, nem sempre ossos e pele são aproveitados, mas é possível. Já tivemos casos no HAOC onde houve doação de ossos, pele, coração e pulmão também.”

“É mais uma questão estrutural de tecnologia e estrutura de ter mais centros transplantadores. No Brasil são poucos centros que fazem todos os tipos de transplante, que são mais comuns em grandes cidades, como São Paulo. É importante também lembrar que, da maneira como o sistema brasileiro é estruturado, quem está no hospital fazendo o diagnóstico de morte encefálica não pode ser do mesmo grupo que depois vai fazer a distribuição dos órgãos e tecidos, para evitar que haja algum tipo de favorecimento. São equipes diferentes, tudo muito bem documentado, para que não haja nenhum conflito de interesse na distribuição dos órgãos e tecidos”, encerra.

De acordo com os médicos do Orlando Health Medical Center, a doação de todos os órgãos do apresentador deve ser direcionada para 50 pessoas que aguardam por um transplante. Além dos órgãos, é possível utilizar córnea, pele, ossos, entre outros. Como o procedimento feito nos Estados Unidos, o aproveitamento será ainda maior graças à tecnologia avançada. Assim, será possível doar órgãos que não seriam utilizados caso ocorresse no Brasil. A idade – quanto mais jovem, melhor – e o estado geral de saúde do paciente são avaliados para determinar quais órgãos poderão ser aproveitados.

Transplante pioneiro de útero no Brasil

Uma equipe de 14 médicos brasileiros liderados pelo ginecologista Dani Ejzenberg anunciou no ano passado. Eles realizaram um transplante de útero a partir de uma doadora morta e a mulher que recebeu o órgão conseguiu engravidar posteriormente. Além disso, a criança nasceu saudável. A operação foi conduzida no Hospital das Clínicas de São Paulo em setembro de 2016.

A paciente, de 32 anos, tinha a Síndrome de Mayer‐Rokitansky‐Kuster‐Hauser (MRKH), doença que afeta uma a cada 4 500 mulheres. O quadro é caracterizado pela falta (total ou parcial) de estruturas que compõem o aparelho reprodutor feminino. Nesse caso específico, ela não tinha o útero, o que impossibilitava qualquer gravidez. A doadora do órgão tinha 45 anos e morreu após sofrer uma hemorragia em uma região específica entre o crânio e o cérebro. Ela havia realizado três partos anteriormente.

A cirurgia pioneira durou quase seis horas e foi um sucesso. A mulher teve alta após oito dias de observação no hospital e precisou tomar remédios imunossupressores durante cinco meses para evitar que seu corpo rejeitasse o útero recebido. Após 37 dias do procedimento, já ocorreu a primeira menstruação e, sete meses depois, os especialistas resolveram implantar um embrião que havia sido colhido, passado pela fertilização in vitro e congelado previamente a partir da junção de seu óvulo com o espermatozoide de seu marido.

Morte de Gugu

O velório do apresentador Gugu Liberato ocorrerá na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e será aberto ao público. Ele morreu na última sexta-feira (22), vítima de um acidente doméstico que aconteceu na quarta-feira (20), nos Estados Unidos. A data ainda não está confirmada, mas a previsão é de que o corpo do apresentador chegue ao Brasil na próxima quinta-feira (28). Ele será sepultado no jazigo da família no Cemitério Getsêmani, no Morumbi, também na capital paulista.

A assessoria de imprensa de Gugu Liberato informou que o corpo dele foi liberado na segunda (25) pelo instituto responsável por necrópsias e laudos (equivalente ao IML, no Brasil). O próximo passo é a retirada do corpo pela funerária, que vai prepará-lo para o traslado aéreo.

foto: divulgação