
HUGO ANTONELI JUNIOR
INDAIATUBA – Com uma camiseta horizontalmente listrada em vermelho e branco ele faz os últimos ajustes antes do início do espetáculo. O dia ainda não escureceu, é sexta-feira (23), em pouco tempo o espetáculo vai começar e nada disso seria possível sem o trabalho árduo dos últimos dias. José, com som de “R” no jota por causa da nacionalidade argentina, é o responsável por um grupo de 15 pessoas que fazem a montagem de toda a estrutura. O Comando Notícia acompanhou o primeiro dia de atividades do circo Stankowich e mostra bastidores e uma entrevista com o palhaço.
A camiseta é do Clube Atlético San Martín, time da cidade natal, Tucumán, nome que dá o apelido entre os colegas. Aos 51 anos é a primeira geração de circo e pelo jeito a última. “Minha família nunca foi de circo e ele odeiam porque o fato de eu trabalhar no circo me tira de casa”, conta. Antes do Nápoles, trabalha há mais de 30 anos no ramo. “É um trabalho duro que começa bem cedo, mas eu gosto e é com isso que ganho o meu dinheiro.”

O meio do picadeiro é o ponto mais confortável para o palhaço Gleiston Guiner, mas ele não está paramentado e, aos gritos, ajuda a ajustar os últimos detalhes dos equipamentos. Enquanto se maquia no trailer onde mora com a mulher, ele conversa com o Comando Notícia menos de 15 minutos antes de entrar no palco. “Nasci em circo e sou a quarta geração. Estou estreando hoje no Stankowich. Palhaço sempre foi um sonho, mas antes disso a gente faz de tudo, cama elástica, acrobacias até chegar a oportunidade”, diz.
Chegando de uma temporada na Alemanha, onde trabalhava em um parque, ele fala da importância do personagem para o circo – principalmente após a proibição de espetáculos com animais. “O palhaço é o principal, a alma do espetáculo. Eu faço um estilo mais contemporâneo baseado na escola russa, que é um palhaço que não fala, não faz piada, é uma nova vertente que precisa-se ser muito rápido”, analisa.
“Você precisa preparar muito bem a piada, porque às vezes a entrada tem três, cinco minutos e não dá para desenvolver muito. As piadas precisam ser rápidas, se não a plateia morre. É preciso principalmente falar com o corpo. Quem era o palhaço antigo? Era aquele que vinha desde criança e quando ficava mais velho não tinha mais mobilidade e, por isso, virava palhaço. Isso mudou”, diz, aos 36.
Os tipos de piada se diferem muito dependendo do público, apesar da essência circense ser a mesma. “O sul-americano gosta de rir mais rápido. Uma piada que você faz na Alemanha vai matar a plateia, vai cair, porque demora, vão achar chato. É logico que tem coisas e costumes que são piadas para nós e para eles não tem graça nenhuma”, conta. “O europeu gosta que prepare mais. O gestual é diferente. É outra realidade econômica também. Isso leva mais pessoas ao circo, o público é maior.”
Enquanto termina a maquiagem, o palhaço sem nariz, “é ruim para respirar”, conta, a mulher, uma trapezista, também posa para a foto. “Conquistei o coração dela com uma piada”, brinca. “O maior medo do palhaço não é que as pessoas não deem risada, mas que a plateia não esteja afim. Risada sempre tem, mas você pode sentir o público e tirar mais risadas”, encerra.
Quando termina a entrevista, o espetáculo está prestes a começar. O globo da morte está montado (e deu um trabalho danado) e o corre-corre de bailarinas, artistas nos bastidores. Será assim nas próximas três semanas todos os dias às 20h30 e aos finais de semana também às 16h e às 18h30.
fotos: Hugo Antoneli Junior/Comando Uno/Comando Notícia