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Sem soro em Indaiatuba, mulher picada por cobra no Videiras vai para a UTI em Campinas

HUGO ANTONELI JUNIOR

Uma mulher de 59 anos foi picada por uma cobra cascavel no bairro Videiras, em Indaiatuba (SP), na semana passada. Ela foi socorrida pelos familiares até Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc) e depois foi levada até Campinas (SP), onde ficou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Unicamp. Felizmente o tratamento fez efeito e ela voltou para casa nesta quarta-feira (19).

O caso, porém, escancarou um problema: Indaiatuba não tem soro para picada de cobra. O Comando Notícia foi até o sítio onde a família trabalha no cultivo de uvas e ouviu a história. Segundo o marido dela, o aparecimento de cobras no local é comum, alguns cachorros já foram atacados, mas nunca um ser humano.

Na semana passada, quando estava em uma horta, ela foi picada no calcanhar. Desesperada, a mulher pediu socorro para os familiares que a levaram para o hospital em um carro particular. Chegando no Haoc, segundo o marido dela, os atendentes disseram que ali tinha o soro para picada de cobra.

“Fiquei mais tranquilo quando me disseram isso”, conta. O caso aconteceu por volta das 9 horas. Por volta de meio-dia veio o susto. “Falaram que precisava levar ela urgentemente para a Unicamp, em Campinas, porque aqui não tinha soro. Fiquei desesperado, já tinham se passado três horas”, relata.

De ambulância eles foram levados até a Unicamp. “A médica de lá ficou brava. Ela disse que nunca tinha atendido nenhuma paciente com a quantidade de veneno desse jeito. Ela disse também que se demorasse mais um pouquinho a minha mulher teria morrido”, conta. Internada na UTI durante o final de semana, ela ficou estável e recebeu alta na terça (18), informaram os familiares.

Gastos

Para visitar a esposa em Campinas, o trabalhador rural diz que tem um gasto alto. “O motorista nos leva lá por R$ 150 – R$ 160 ida e volta. Não batem os horários de ônibus para lá, infelizmente. Esses dias todos que fomos visitar ela tivemos que gastar isso. E se não tivesse, como ia fazer?”, questiona.

Sobre a falta de soro ele também reclama. “O atendimento aqui no Haoc foi muito bom, mas não tem soro, não sei porque me falaram que tinha. Se não tinha era só levar para Campinas. Lá também ela foi muito bem tratada. A questão é que se tivesse demorado alguns minutos mais, ela teria morrido, segundo a médica de Campinas nos disse”, afirma.

“O que a gente pede é uma atenção com a cidade, né? Uma cidade deste tamanho, com toda essa área rural não ter um remédio para picada de cobra é um absurdo, não sei onde vamos parar. Por muito pouco não acontece uma tragédia”, desabafa.

Resposta

O Haoc, via assessoria de imprensa, enviou uma resposta sobre a reclamação, que você lê abaixo:

O HAOC informa que há um protocolo de atendimento médico a ser seguido em casos de picada de cobra e outros animais peçonhentos. O centro de referência para Indaiatuba é o Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Campinas (CIATox), da Unicamp, equipado com os soros específicos para cada caso de picada. Enquanto o paciente recebe os primeiros socorros na sala de emergência do hospital, é feito, simultaneamente, o contato com a equipe do CIATox, que avalia o caso mediante informações tais como relato médico e, se houver, imagem do animal que provocou a picada. A orientação foi de que a paciente fosse transferida ao CIATox, o que de fato ocorreu, através de ambulância, e está registrado em prontuário médico e via Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (CROSS).

Ficha da paciente enviada pelo Haoc.

Acidente ofídico ou ofidismo é o quadro de envenenamento decorrente da inoculação de uma peçonha através do aparelho inoculador (presas) de serpentes. No Brasil, as serpentes peçonhentas de interesse em saúde pública pertencem às Famílias Viperidae e Elapidae. Os acidentes estão divididos em quatro tipos: acidentes botrópicos (acidentes com serpentes dos gêneros Bothrops e Bothrocophias – jararaca, jararacuçu, urutu, caiçaca, comboia); acidentes crotálicos (acidentes com serpentes do gênero Crotalus – cascavel); acidentes laquéticos (acidentes com serpentes do gênero Lachesis – surucucu-pico-de-jaca); acidente elapídico (acidentes com serpentes dos gêneros Micrurus e Leptomicrurus – coral-verdadeira). O envenenamento ocorre quando a serpente consegue injetar o conteúdo de suas glândulas venenosas, mas nem toda picada leva ao envenenamento. Isso porque há muitas espécies de serpentes que não possuem presas ou, quando presentes, estão localizadas na parte de trás da boca, o que dificulta a injeção de veneno ou toxina.

Como prevenir acidentes

  • O uso de botas de cano alto ou perneira de couro, botinas e sapatos pode evitar cerca de 80% dos acidentes;
  • Usar luvas de aparas de couro para manipular folhas secas, montes de lixo, lenha, palhas, etc. Não colocar as mãos em buracos. Cerca de 15% das picadas atingem mãos ou antebraços;
  • Cobras se abrigam em locais quentes, escuros e úmidos. Cuidado ao mexer em pilhas de lenha, palhadas de feijão, milho ou cana. Cuidado ao revirar cupinzeiros;
  • Onde há rato, há cobra. Limpar paióis e terreiros, não deixar lixo acumulado. Fechar buracos de muros e frestas de portas;
  • Evitar acúmulo de lixo ou entulho, de pedras, tijolos, telhas e madeiras, bem como não deixar mato alto ao redor das casas. Isso atrai e serve de abrigo para pequenos animais, que servem de alimentos às serpentes.

O que fazer em caso de acidente

  • Lavar o local da picada apenas com água ou com água e sabão;
  • Manter o paciente deitado;
  • Manter o paciente hidratado;
  • Procurar o serviço médico mais próximo;
  • Se possível, levar o animal para identificação.

O que NÃO fazer em caso de acidente

  • Não fazer torniquete ou garrote;
  • Não cortar o local da picada;
  • Não perfurar ao redor do local da picada;
  • Não colocar folhas, pó de café ou outros contaminantes;
  • Não beber bebidas alcoólicas, querosene ou outros tóxicos.

Tratamento

O tratamento é feito com o soro específico para cada tipo de envenenamento. Os soros antiofídicos específicos são o único tratamento eficaz e, quando indicados, devem ser administrados em ambiente hospitalar e sob supervisão médica.

fotos: Reginaldo Rodrigues/Comando Notícia