Vítima de violência doméstica se torna voz de socorro do 190: conheça a história da cabo Kátia – Comando Notícia
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Vítima de violência doméstica se torna voz de socorro do 190: conheça a história da cabo Kátia

Cabo pm katia
“Ele tentou me jogar para fora do carro no meio da rodovia durante uma discussão”. O relato de uma vítima de violência doméstica é de um episódio que aconteceu há mais de 20 anos. Kátia Cilene, recém chegada a São Paulo, contava ao marido que tinha sido aprovada para se tornar policial militar. Em vez do apoio, vieram as agressões. 
 
Grávida do primeiro filho aos 19 anos, Kátia tinha se mudado de Recife (PE) para a capital paulista com o então marido. Por ter sido proibida de trabalhar, passava os dias cuidando da casa, em uma rotina cercada de exigências absurdas e violência psicológica. “Eu achava normal, achava que precisava melhorar e que a culpa era sempre minha”, afirmou.
 
Um dia, esperou o marido levar as crianças para a escola para sair escondida. Pulou a janela – já que a porta ficava trancada – e foi ao centro em busca de emprego. No caminho, encontrou duas jovens com um jornal de classificados e ouviu algo que mudaria seu destino: elas iam fazer a inscrição para a “Polícia Feminina”, como era chamada na época. 
 
“Meu dinheiro era só da passagem. Foi o que usei para fazer a inscrição”, contou. A dona de casa decidiu esconder que estava se preparando para o concurso. Fez cada etapa da seleção em silêncio, com medo que ele descobrisse e a impedisse de continuar.
 
Ao se tornar policial, as agressões se agravaram 
 
“Agora, vocês são policiais militares”, anunciou um sargento à época. A conquista, precedida do início da formação, se misturou com o medo. “Eu pensei: ‘meu Deus, agora eu vou ter uma arma. Como vou contar isso? Como vão ficar meus filhos?’ ”, relembrou.
 
Contar para o ex-marido agravou os episódios de violência, como o relatado no início deste texto. Mesmo assim, ela decidiu continuar. 
 
Durante os oito meses de curso de formação, as agressões físicas continuaram. Kátia estudava durante a semana e voltava para casa tentando manter a rotina dos filhos. O marido, até então provedor da casa, restringiu a ajuda financeira à família. Foi quando Kátia contou com o apoio crucial da tia, que ajudava e cuidava das crianças. 
 
Foi nesse período que também encontrou suporte dentro da própria corporação. Uma colega de turma dividia o armário com ela e repetia um conselho simples que se tornaria símbolo de resistência: “Coloca todos os seus problemas dentro do armário, veste o uniforme e estuda. Depois, você enfrenta o resto”. Foi exatamente o que ela fez.
 
Concluiu o curso como a quarta colocada da turma e conquistou uma vaga no Copom, onde atuou por 28 anos e se tornou uma das vozes de socorro no telefone de emergência 190.
 
Ela entendeu a violência que sofreu depois de quase 30 anos
 
Mesmo trabalhando na PM, Kátia passou anos sem reconhecer que também tinha sido vítima da violência que agora ajudava a combater. A compreensão e aceitação só vieram décadas depois, em 2023, ao participar do curso da Cabine Lilás, programa voltado ao atendimento especializado de mulheres vítimas de violência.
 
Ao ouvir psicólogas, promotoras e representantes da Defensoria Pública explicando os ciclos da violência doméstica, uma ficha caiu. “Eu me identifiquei, percebi que sofri tudo aquilo por anos.” 
 
Foram cerca de 10 a 15 anos para perceber o que vivia. E 28 anos de carreira para conseguir nomear a própria dor.
 
Ela atuou por mais de um ano no atendimento da Cabine Lilás e se reconheceu em muitas das mulheres do outro lado da linha. A experiência pessoal se transformou em ferramenta profissional. Em muitas ligações, após ouvir relatos sobre o marido, filhos e a rotina de casa, ela fazia uma pergunta: “Você falou do seu marido, dos seus filhos, mas e você?”, por entender que muitas mulheres se anulam dentro da própria família, perdendo autonomia e a identidade.
 
Formação de policiais
 
Hoje, prestes a completar 30 anos de Polícia Militar, ela atua na formação de novos agentes. Dá aulas de Tecnologia, Informação e Comunicação na Escola Superior de Soldados (ESSd) e de Direitos Humanos no Comando de Policiamento de Choque (CPChq).
 
“Eu ensino que é preciso ser profissional e, ao mesmo tempo, humanizado. Quem liga para o 190 está em um momento de desespero. Às vezes é a única chance que aquela pessoa tem”, comentou. 
 
Ao olhar para o passado, Kátia evita romantizar a trajetória. “É uma ferida que fica”, afirmou. Mas reconhece o caminho percorrido com orgulho. “Com todas as dificuldades, eu venci. Não sozinha, tive Deus, minha tia, colegas e meus filhos, mas eu venci.”
 
A jovem de 19 anos que saiu escondida de casa para procurar emprego, hoje é a mulher que ensina outras a reconhecer que violência não pode ser aceita, e que recomeçar é possível.
 
Com informações: SSP-SP