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“Vocês mataram a nossa criança”, pais relatam violência obstétrica no Haoc

HUGO ANTONELI JUNIOR

O sonho de ter um filho virou um pesadelo para o casal Gabriela da Silva, 22 anos, Vandreilson dos Santos, de 26. O filho deles, Heitor, morreu após quase 15 horas de espera pelo parto no Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc), em Indaiatuba (SP). Na casa deles, no Jardim Morada do Sol, o Comando Notícia ouviu nesta sexta-feira (17) o relato sobre as horas de dor e sofrimento que a família sofreu antes da maior perda que eles poderiam ter.

O relato da mãe foi compartilhado centenas de vezes desde a madrugada, quando ela resolveu publicar em um grupo do Facebook. “Eu vi a notícia de vocês sobre o rapaz que convulsionou esperando atendimento no Haoc e nos comentários tinha um rapaz falando que o atendimento era maravilhoso, que era um hospital modelo, cidade modelo. Aí resolvi publicar o texto, as pessoas precisam saber”, conta.

“Não consegui desprender das coisinhas dele”, conta a mãe. “Cada roupinha que a gente comprava, guardava. Todos os dias eu arrumava a minha bolsa. A gente sempre dizia: ‘o neném vai usar isso, vai usar aquilo, logo ele estará aqui’. Mas não está. Até agora eu não pude dormir. Choro toda noite. Infelizmente o meu Heitor não vai voltar. Ele poderia estar aqui com a gente, com quatro, cinco dias. Não está fácil. A gente vai processar, mas isso não vai trazer ele de volta. Não paga uma vida”, diz ela. O hospital enviou uma nota ao Comando Notícia que você pode ler abaixo.

Bolsa estourou meia-noite

Gabriela conta que depois que a bolsa estourou foi até o hospital. Eles chegaram no local entre uma e meia e duas da manhã. “Abriram a ficha e ainda demorou para atender. Como eu estava perdendo muito líquido já mandou internar. Estava com dois dedos de dilatação e eu pedi para o médico fazer cesárea por volta das seis da manhã porque sabia que ia trocar de plantão e elas iriam entrar”, diz, referindo-se a duas médicas que tinham a tratado mal e com grosserias outras vezes.

É a segunda vez que Gabriela é mãe. O primeiro filho dela tem cinco anos e ela teve no hospital Galileo, em Valinhos (SP), a 36 quilômetros de Indaiatuba. “Sofri a mesma coisa, horários parecidos, mas todos foram muito atenciosos lá, não me deixaram sozinha e o médico quando viu que não ia dilatar, fez a cesárea. Ao contrário daqui”, conta. O casal está junto há quatro anos e não era de Indaiatuba, mudando-se para cá recentemente.

“Sempre me machucando”

“Tem que aguentar, tem que ser forte”, era isso que as médicas responsáveis diziam para ela durante o período em que ficou no hospital. “Falam que tem que ter muita sorte se pega elas. Porque na semana passada eu tinha ido no hospital com a pressão 15 por 9 e uma delas disse era era normal, me mandou embora pra casa”, conta. Quanto iam fazer o acompanhamento também viam a situação do bebê. “Diziam que estava perfeito.”

Ela relata que durante os exames de toque para medir a dilatação, que passou de dois dedos para quatro no início da manhã, as médicas a machucavam. “Toda vez que era o toque elas me machucavam, eu falava que estava doendo e ela falava para aguentar”, diz. “Sempre grossas e falando que era normal. A gente pediu para ser cesárea e elas disseram que eu teria que assinar um termo de responsabilidade porque eu poderia pegar uma infecção ali no hospital”, diz ela. Tudo isso aconteceu depois do almoço e o parto só foi ser realizado por volta das 17 horas, depois de injeções que ela levou e conseguiu chegar a nove dedos de dilatação.

“Meu neném morreu”

Gabriela afirma que elas empurravam a barriga dela para baixo e a colocaram em várias posições. “Elas empurravam, pediram para o meu marido ajudar, chamou as enfermeiras”, diz, chorando. “Eu pedia pelo amor de Deus para pararem. Aí ela dizia para continuar porque estava dando para ver a cabecinha”, conta.

“Mentira, não dava para ver nada”, afirma o marido e pai da criança. “A cabeça ficou presa e o corpinho dele não saía, não tinha passagem e elas forçando, forçando, dizendo que era normal. Eu nunca sofri tanta dor na minha vida”, relata.

Quando o bebê saiu, estava roxo. “Eu vi”, diz a mãe. “Não estava respirando e eu falei para elas. Aí mandaram eu ficar quieto porque sabiam o que estavam acontecendo”, afirma o pai. “Colocaram no oxigênio – prossegue Gabriela -, o médico já pegou o oxigênio, começaram a fazer massagem no coração dele.”

“Mais adrenalina”

Os médicos, segundo os pais, injetaram adrenalina e fizeram os procedimentos padrões de reanimação. “Levaram para a sala de cirurgia ao lado e alguns minutos depois voltaram e disseram: ‘mãe, infelizmente seu filho não sobreviveu. Eu comecei a chorar. Meu marido entrou em desespero e disse: ‘vocês mataram a nossa criança’, eu só dizia: ‘meu bebê morreu, meu bebê morreu’, eu gritava. Aí trouxeram o corpo do nosso filho, nos deram e todos saíram. Nos deixaram sozinhos ali”, afirma. Heitor nasceu com três quilos e seiscentos, quase cinquenta e dois centímetros. “Escolhi este nome porque significa bondoso, generoso.”

“Peguei ele no colo, nos despedimos do bebê, pedimos pra Deus trazer ele de volta, mas já era tarde”, afirmou no momento mais triste da entrevista. “Ninguém veio lá. Eu não tive nenhuma assistência. Meu marido é que me ajudou a tomar banho, a sair dali. Ele que teve que levar o corpo do nosso filho para as médicas. Ele pegou no colo e levou”, relata a mãe, que não foi colocada junto às outras mães, mas em um local onda havia pessoas com pneumonia, por exemplo, de acordo com o que ela conta.

“Pensei que iria morrer”

Outro relato que Gabriela faz é de que o pensamento sobre a morte a rondou durante todo o período. “Eu pedia para ele [aponta para o marido] para não me deixar morrer, que eu não estava aguentando, que se eu não morresse o bebê ia morrer. Eu sofri muito. Eu sofri a dor do parto, eu sofri a dor psicológica e eu ainda estou sofrendo, sentindo a dor do que aconteceu. Ainda sinto todas as dores”, diz.

“Eu sobrevivi, mas a pessoa que eu esperei por nove meses não está aqui. A nossa vida não vai ser mais a mesma. A gente preparou tudo, estávamos felizes. Fomos para lá ter o nosso filho e voltamos sem ele, só com as roupas, só com as bolsas. No sábado a gente comprou as últimas coisinhas. Eu até falei para ele: ‘Heitor, vem até terça porque a mãe não aguenta mais de dor, preciso que você venha’. Infelizmente a gente pegou a segunda-feira, pegamos aquelas médicas.”

“Eu não posso voltar lá”

O casal que não é de Indaiatuba pensa em se mudar depois da tragédia. “Eu não tenho coragem de voltar lá [Haoc]. É o lugar onde o meu filho morreu. Eu fui pegar os documentos hoje, mas o meu coração queima”, diz. “Para mim elas machucaram o meu bebê. Um bebê se trata com carinho. É difícil saber que a vida não vale nada. Que a cesárea vale mais do que a vida. Porque não queria pagar pela cesárea”, diz.

“Eu não quero ficar aqui [em Indaiatuba]”, dizem. “Gosto das pessoas daqui, mas infelizmente tudo que faz lembrar. Todos os caminhos passam ali perto. Tudo tem o nome, no ônibus, no bairro. Você vai lá para ter o seu filho, você sofre, mas muitas tem sorte e saem com o filho nos braços, apesar da dor ficar, eu não tive esta sorte. A maternidade é a coisa mais linda do ser humano, mas se torna um pesadelo. Eles precisam lembrar que estão lá para salvar vidas e não acabar com vidas.”

Outro filho

Apesar da dor, o casal responde junto à pergunta sobre o sonho de serem pais. “Sim, queremos”, falam. “Se você quer ter um filho, ou vai para um hospital melhor, ou guarda dinheiro. Daqui algum tempo, assim que a dor for diminuindo a gente pensa, sim, mas não vai ser o Heitor. Se Deus colocar outra criança na nossa vida vai ser um hospital melhor, cesárea, uma cidade melhor.”

“A gente teve uma experiência triste, traumática. O sonho de todo casal é ter uma família, é o nosso sonho também, mas que infelizmente foi destruído por negligência médica. É preciso que eles tenham respeito pelos pacientes. Não adianta prédio bonito e atender deste jeito”, afirma. Sobre o próximo filho eles tem uma certeza. “Deus me livre, Oliveira Camargo nunca mais.”

Haoc

A assessoria de imprensa do Haoc enviou uma nota ao Comando Notícia na tarde desta sexta, que reproduzimos na íntegra abaixo.

“O hospital é impedido pela legislação de discutir publicamente sobre casos de paciente, mas se é verdade que a própria gestante tenha questionado junto ao jornal da cidade, a informação se torna pública. De qualquer forma, de maneira geral, temos a informar que tratou-se de um caso de distócia de ombro e prolapso de cordão na insinuação fetal no canal vaginal.

A paciente apresentava todos os elementos e sinais clínicos para um parto vaginal, e não apresentava evidências clinicas que contra indicasse a via baixa ou natural, conforme preconiza o Ministério da Saúde, o Conselho Regional de Medicina e as entidades médicas reconhecidas.

A distocia de ombro é um evento raro e imprevisível e que somente pode ser diagnosticado durante o trabalho de parto. Destaque-se que houve boa progressão do parto, com insinuação completa do polo cefálico no períneo, o que comprova a viabilidade do canal de parto, mas houve dificuldade na expulsão das espáduas. Some-se a isto, conforme relatado pela obstetra a presença de prolapso de cordão umbilical lateral a apresentação, que certamente causou o sofrimento fetal agudo.

Certas condições raras e inesperadas podem acontecer, sem que haja qualquer pródromo que pudesse antecipar  as dificuldades. O parto cesariano também suas ocorrências raras que podem determinar o sofrimento fetal. A obstetra é profissional experiente na área de obstetrícia, sem ocorrências que possam questionar suas habilidade e competências na condução de um parto.

De qualquer forma, fica a sugestão, caso a família não se sinta esclarecida, formalizar um pedido de sindicância que será realizada e enviada ao Conselho Regional de Medicina, Câmara técnica de obstetrícia de São Paulo para emitir um parecer mais isento. Mais informações poderão ser fornecidas a própria parturiente, ante uma solicitação formal.

A diretoria.”

fotos: Reginaldo Rodrigues/Comando Uno/Comando Notícia