Especialista aponta como a indústria de alimentos pode contribuir para mitigar impactos associados aos ultraprocessados, destacados em estudo recente

São Bernardo do Campo, maio de 2026 – A preocupação com os ultraprocessados deixou de estar restrita ao campo nutricional e passou a ocupar também o centro das discussões sobre prevenção cardiovascular. Um consenso clínico europeu, publicado em maio no European Heart Journal, aponta associação entre o consumo elevado desses alimentos e o aumento do risco de doenças cardíacas, fibrilação atrial e morte por causas cardiovasculares.
Segundo o documento, pessoas que consomem maiores quantidades de ultraprocessados podem ter até 19% mais risco de desenvolver doenças cardíacas, 13% mais risco de fibrilação atrial e até 65% mais risco de mortalidade cardiovascular, em comparação com indivíduos que consomem menos esse tipo de produto. O trabalho foi conduzido por especialistas da Sociedade Europeia de Cardiologia e da Associação Europeia de Cardiologia Preventiva, com pesquisadores de instituições médicas e acadêmicas da Itália.
Para Ana Laura Tibério de Jesus, coordenadora do curso de Engenharia de Alimentos da Faculdade Engenheiro Salvador Arena, o debate sobre ultraprocessados não deve se limitar apenas à redução do consumo desses produtos, mas também à evolução das tecnologias e formulações utilizadas pela indústria alimentícia.
Segundo a especialista, a Engenharia de Alimentos desempenha papel importante no desenvolvimento de soluções que conciliem praticidade, segurança de alimentos e melhor qualidade nutricional. “A Engenharia de Alimentos atua diretamente na reformulação de produtos, redução de sódio, açúcar e gorduras, além do desenvolvimento de tecnologias que ampliem a conservação e a praticidade sem comprometer tanto o valor nutricional dos alimentos. Existe hoje um movimento crescente da indústria para buscar alternativas mais equilibradas e alinhadas às demandas de saúde pública”, explica.
Presentes na rotina de milhões de brasileiros, os alimentos ultraprocessados ganharam espaço principalmente pela praticidade, durabilidade e conveniência. Ao mesmo tempo, se tornaram tema frequente em debates sobre saúde pública e qualidade da alimentação.
A classificação NOVA, criada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicada em 2010, categoriza os alimentos de acordo com o grau de processamento industrial.
Essa classificação divide os alimentos em quatro grupos: in natura ou minimamente processados, como frutas, folhas, raízes, ovos e leites; ingredientes culinários processados, como açúcar de cana ou beterraba, sal marinho e azeite; alimentos processados, como queijos, conservas de legumes ou de pescado e pães do tipo artesanal; e os ultraprocessados, que apresentam formulações industriais mais complexas, com aditivos, aromatizantes, corantes e ingredientes pouco utilizados em preparações caseiras.
“Nem todo alimento industrializado é necessariamente prejudicial ou ultraprocessado. Existe uma diferença importante entre alimentos minimamente processados, processados e ultraprocessados, e compreender isso ajuda o consumidor a fazer escolhas mais conscientes”, destaca Ana Laura.
Outro ponto que gera dúvidas é o apelo de marketing de produtos classificados como “fit”, “zero”, “light” ou “proteicos”. Apesar da imagem associada à saúde, muitos desses itens continuam sendo ultraprocessados devido à formulação industrial e à quantidade de aditivos presentes.
Na prática, identificar um ultraprocessado pode ser mais simples do que parece. Uma das principais dicas é observar a lista de ingredientes. Produtos com muitos componentes, nomes pouco familiares e presença frequente de aditivos químicos tendem a se enquadrar nessa categoria.
Ainda assim, Ana Laura reforça que o consumo deve ser analisado no contexto geral da alimentação e do estilo de vida. “O problema não está em consumir eventualmente um alimento ultraprocessado, mas no excesso e na substituição frequente de refeições equilibradas por esses produtos”, afirma.
Além da discussão nutricional, o tema também envolve fatores sociais e econômicos. Em muitos casos, ultraprocessados oferecem maior praticidade, longa validade e custo aparentemente mais acessível, especialmente em regiões onde o acesso a alimentos frescos é limitado.
“A indústria de alimentos também exerce um papel importante na segurança dos alimentos, conservação e desenvolvimento de soluções práticas para o consumo cotidiano. O desafio atual está justamente em equilibrar inovação, conveniência e qualidade nutricional”, completa.
“O consumidor não precisa buscar uma alimentação perfeita, mas sim mais consciente e equilibrada. Informação e moderação continuam sendo os principais aliados para escolhas alimentares mais saudáveis”, finaliza Ana Laura.

Com informações: Engenharia de Alimentos






